sexta-feira, 18 de abril de 2025

SEM ANISTIA para a 'REALIDADE INVERSA' do 8 de janeiro de 2023...

O projeto alternativo de anistia e negociação dos crimes do '8/1' soa como um discurso de 'realidade inversa' no Congresso Nacional 

Charge, Benett, Folha de S. Paulo: 15 abr 2025, em que há uma escultura da golpista "Fátima de Tubarão", na posição que a tornou célebre no dia 8 de janeiro de 2023.
França Neto, J*.

Ao conceder o projeto alternativo de anistia e sua negociação no Congresso Nacional, pode-se ter o efeito adverso em promover a impunidade para criminosos bolsonaristas, que destruíram as sedes dos Três Poderes [Edifícios da Câmara dos Deputados e Senado (Congresso), Palácio do Planalto (presidente) e do Palácio do STF (juízes)], em Brasília, 08 de janeiro de 2023, depois deles não aceitarem a derrota de Jair Bolsonaro para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial de 2022.

Esse ato golpista de bolsonaristas radicais provocou um prejuízo de mais de R$ 26 milhões aos cofres públicos, pagos por meio de arrecadação de impostos e contribuições dos cidadãos brasileiros [o ‘dinheiro público’].

domingo, 29 de dezembro de 2024

'TRABALHO ESCRAVO': o "Socialismo do Século XXI"?

 Trabalho escravo chinês na Bahia. Isso é socialismo?

Foto: Alojamento em que foram resgatados trabalhadores chineses da obra da BYD na Bahia. Crédito: Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM) da Subsecretaria de Inspeção do Trabalho (SIT).

Por Luis Felipe Miguel*

O Ministério Público do Trabalho resgatou 163 trabalhadores em condições análogas à escravidão, na obra de construção da fábrica da BYD em Camaçari, na Bahia.

A BYD é chinesa. A empreiteira, Jinjiang, é chinesa. Os trabalhadores submetidos às condições de escravidão também são chineses.

Nota do Ministério Público do Trabalho, sobre a obra da BYD em Camaçari: “As condições encontradas nos alojamentos revelaram um quadro alarmante de precariedade e degradância. No primeiro alojamento da Rua Colorado, os trabalhadores dormiam em camas sem colchões, não possuíam armários para seus pertences pessoais, que ficavam misturados com materiais de alimentação. A situação sanitária era especialmente crítica, com apenas um banheiro para cada 31 trabalhadores, forçando-os a acordar às 4h para formar fila e conseguir se preparar para sair ao trabalho às 5h30”.

Os operários eram descritos como “consultores”, uma vez que dificilmente o Brasil concede vistos para trabalhadores não especializados.

Fico pensando qual a taxa de exploração a que eles estavam sendo submetidos, para que, para as empresas, valesse a pena importar tantos trabalhadores da China.

Segundos todas as informações disponíveis (de relatos jornalísticos a pesquisas de sociólogos e economistas), as condições de trabalho na China são espantosas.

Direitos que por aqui são assegurados há décadas, como descanso remunerado, ainda não vigoram. Trabalhadores “ilegais” - devidos às regras de migração interna - são submetidos a condições ainda piores.

sábado, 8 de junho de 2024

A INTENTONA BOLSONARISTA: SEUS CRIMES DE TENTATIVA DE GOLPE DE ESTADO, FUGA E O PAPEL DA GRANDE MÍDIA NO BRASIL

A INTENTONA BOLSONARISTA, SEUS CRIMES DE TENTATIVA DE GOLPE DE ESTADO, FUGA E O PAPEL DA GRANDE MÍDIA NO BRASIL

Por França Neto, J*, 08jun.2024  

Foto: Em 08jan.2023, Bolsonaristas radicais criminosos invadem o STF, Congresso Nacional e o Palácio do Planalto, depredando o Patrimônio Público dos palácios dos 3 Poderes, em Brasília (DF). Reprodução/Wallace Martins/Futura Press/Estadão Conteúdo.

O portal Uol exibiu neste sábado (08jun.2024) um vídeo, entrevista de quatro minutos, com dois bandidos, condenados e foragidos da Justiça brasileira, Luiz Fernandes Venâncio, 50, e Marco Antônio Iglesias Simal, 31, que praticaram, em 08jan.2023, juntamente com centenas de bolsonaristas radicais e criminosos, atos antidemocráticos e destruíram o patrimônio público (palácios dos 3 Poderes, em Brasília/DF), o qual custou na sua reedificação ao menos R$ 16 milhões aos cofres públicos [quem paga é o POVO].

A Polícia Federal (PF) prendeu, na recaptura, até a última sexta-feira (7/8), 50 bolsonaristas foragidos, que, após ganharem a liberdade condicional, quebraram tornozeleiras eletrônicas e fugiram de ônibus para a Argentina e outras partes do Brasil.

Em nenhum momento, os repórteres do Uol, Grupo Folha, perguntaram aos criminosos bolsonaristas: se eles estavam arrependidos dos crimes cometidos e ‘por que perpetraram os atos antidemocráticos, em 8 de janeiro de 2023, que culminaram com a destruição dos palácios dos 3 Poderes, em Brasília, custando aproximadamente R$ 16 milhões ao erário no Brasil’?

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

GOLPE ABORTADO

'Golpe abortado'

Por Frei Betto* 

Invasão de terroristas nesse domingo (8/1/2023) em Brasília, onde milhares de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foram protestar contra a vitória na eleição de 2022 do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Inconformados com a derrota em 2022 do ex-presidente, bolsonaristas radicais (terroristas/golpistas) invadiram e depredaram prédios públicos, como o Supremo Tribunal Federal (STF), o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional [Câmara e Senado]. As forças de Segurança Nacional conseguiram coibir milhares de manifestantes e prender centenas de invasores e vândalos que destruíram o patrimônio público na Praça dos Três Poderes na Capital do País. Lula venceu a disputa no segundo turno, em 2022, sendo ele eleito de forma legitima com 60.345.999 votos, o que representou, à época, 50,9%, contra os 58.206.354 votos em Bolsonaro que resultou em 49,1%. Avaliações das urnas eletrônicas eleitorais demonstraram que elas são seguras e todas passaram por auditorias de especialistas no Brasil e  analistas internacionais. As urnas eletrônicas são criptografadas, geram boletins impressos no início das votações, de 'zero votos' [zerésima] aos candidatos, e, em seguida, são realizadas a apuração e totalização do resultado da eleição que é proclamada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).  Nunca houve registro de fraude eleitoral desde a adoção do voto eletrônico, em 1996. Foto: Evaristo Sa/AFP.

Ao destruir os palácios dos três poderes no domingo, 8 de janeiro, em Brasília, os terroristas bolsonaristas mostraram as caras e as garras. Trumpistas miméticos, reproduziram aqui em dimensões mais amplas o vandalismo ocorrido no Capitólio, em Washington, há dois anos, numa demonstração cabal de que seu lema é “ditadura sim, democracia não!”.

A segurança falhou por cumplicidade do governador de Brasília, Ibaneis Rocha, e seu secretário de Segurança, o ex-ministro da Justiça Anderson Torres. A Polícia Militar da capital federal, responsável pela defesa do patrimônio nacional, facilitou a ação dos criminosos e só prendeu alguns vândalos após Lula decretar intervenção federal na segurança pública de Brasília.

As Forças Armadas se omitiram, em evidente postura de apoio tácito ao terrorismo. Aliás, as “incubadoras de terroristas”, como bem qualificou o ministro da Justiça, Flávio Dino ao se referir aos acampamentos bolsonaristas diante de quartéis, afinal chocaram o ovo da serpente. A Justiça brasileira cometeu o grave erro de, nos primórdios da redemocratização do país, em meados de 1980, não punir com rigor os assassinos e torturadores a serviço da ditadura militar que se apossou do país durante 21 anos (1964-1985). Tivesse seguido o exemplo da Argentina, do Uruguai e do Chile, o Brasil teria separado o joio do trigo.

sábado, 29 de janeiro de 2022

ELEIÇÃO PRESIDENCIAL 2022

 Panorama visto da ponte

A eleição de outubro caminha mesmo para o embate Lula versus Bolsonaro

Por Luis Felipe Miguel*

Em dezembro 2021, pesquisa Datafolha presencial com 3.666 pessoas apontou que Lula tem 48% das intenções de voto no 1º turno, seguido de Bolsonaro (22%), Moro (9%) e Ciro (7%). Foto: em montagem, o ex-presidente Lula, o presidente Jair Bolsonaro, Sergio Moro e Ciro Gomes. Miguel Schincariol/AFP e Pedro Ladeira/Folhapress.

A candidatura de Lula segue de vento em popa. A estratégia escolhida pelo ex-presidente é – para usar uma palavra neutra – discutível, sobretudo quanto a seus efeitos pós-eleitorais, mas este é tema para outra reflexão. Desde que recuperou os direitos políticos, ele soube se posicionar como a antítese do pesadelo bolsonarista, tornando-se praticamente a opção única do centro para a esquerda. Embora venha mais uma campanha muito pesada, das usinas de fake news às minisséries da TV Globo, larga como franco favorito.

Já para Bolsonaro, o melhor caminho seria talvez desistir de uma reeleição improvável e tentar um mandato parlamentar pelo Rio de Janeiro, garantindo imunidade. Mas tal passo é contraditório com a persona política que ele criou e com a manutenção de sua base fanatizada (além de exigir a desincompatibilização do cargo). Deve, portanto, seguir o caminho de Trump: tumultuar o processo ao máximo, apostar em manobras de alto risco e manter, sempre, uma alta capacidade de disrupção, a fim de inibir medidas legais contra ele por parte de um futuro governo democrático.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Depois de castigarem a Bahia, chuvas fortes podem se intensificar em Minas Gerais

Chuvas fortes podem se intensificar em MG

Segundo o alerta da empresa Metsul, Belo Horizonte é a capital com maior risco para chuvas nos últimos dias de 2021 e começo de 2022

Ponte não resistiu à força da correnteza das inundações no município de Jucuruçu e parte da estrutura foi levada pelas águas. Foto: Manu Dias/Governo da Bahia

Ponte não resistiu à força da correnteza das inundações no município de Jucuruçu e parte da estrutura foi levada pelas águas. Foto: Manu Dias/Governo da Bahia

Por jornal O Tempo/BH - 28/12/21: 18h21
Depois de castigarem a Bahia, causando inundações e deixando mais de cem municípios em estado de emergência, as chuvas devem chegar com mais intensidade na região Sudeste, principalmente em Minas Gerais. O alerta é da empresa de meteorologia Metsul, feito nesta terça-feira (28).

Segundo o instituto, o corredor de umidade, responsável pelo excesso de precipitações no estado baiano, e também no Tocantins, vai estar mais ao Sul nos próximos dias, ocasionando volumes de chuva muito altos na região sudeste. “O Estado com maior risco é Minas Gerais, entretanto áreas do Rio de Janeiro e de São Paulo também podem sofrer com precipitação excessiva”, diz o comunicado publicado no site da empresa.

domingo, 25 de abril de 2021

COVID-19: A EPIDEMIA SILENCIOSA DA DOR QUE ‘ESCONDE O TERROR E O SOFRIMENTO DOS QUE MORRERAM SOZINHOS’

Morte “higiênica” e “escondida” por covid-19 agrava a epidemia silenciosa da dor

Duas pesquisas apontam que cada óbito afeta uma média de nove parentes diretos, gerando uma nova onda de desafios para a saúde da população
Enfermeira atende um paciente internado na UTI do Complexo Hospitalar de Navarra, na Espanha, em 15 de abril. Foto: Jesús Diges / EFE

El País, 24 abr 2021 - Raúl LimónOs mortos por covid-19 se tornaram um número a mais. Suas cifras, sem imagens e sem referências biográficas, acompanham diariamente as de contagiados, hospitalizados, internados em UTIs e vacinados. É o que o antropólogo Alberto del Campo, da Universidade Pablo de Olavide, em Sevilha (sul da Espanha), qualifica como “morte higiênica”, que, entre outras coisas, “esconde o terror e o sofrimento dos que morreram sozinhos”, segundo ele. Mas essas mortes têm consequências que vão além dela própria. Dois estudos diferentes, um da Universidade de Cambridge (Reino Unido) e outro da Estadual da Pensilvânia (EUA), concordam em calcular que, de cada paciente morto por covid-19, há um impacto direto sobre nove parentes próximos (avós, pais, irmãos, cônjuges e filhos), que são parte de uma crise sanitária, social e econômica mais ampla que a atribuída diretamente ao coronavírus. Segundo a conclusão do estudo norte-americano, publicado na revista PNAS, “poderiam conduzir indiretamente a uma maior mortalidade devido a causas não relacionadas com a pandemia: agravamento de condições crônicas não tratadas, abuso de álcool, autolesão, violência doméstica e outros fatores”.

Para o antropólogo sevilhano, “a higienização da morte não é uma estratégia inocente, como tampouco é inocente a forma como o poder tenta camuflar a calamidade da pandemia, como se de uma catástrofe natural se tratasse. Se for apresentada como inevitável, então não há responsáveis”.

Del Campo reuniu em seu livro Pensar la pandemia (editora Dykinson, 2021) uma dúzia de trabalhos sobre os efeitos da covid-19 além da saúde e a economia. Em um destes estudos, Alejandro González Jiménez-Peña, especialista em filosofia da morte, acrescenta uma razão antropológica adicional para esta camuflagem da morte: “Antigamente ela era silenciada, era um tabu até ontem, antes da pandemia, e poderíamos continuar dizendo que é um tabu hoje em dia, apesar da pandemia”.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

EVOLUÇÃO HUMANA

 E se nós formos os neandertais?

As últimas descobertas genéticas reabrem o debate sobre a possibilidade de que esta espécie não tenha se extinguido, mas foi integrada aos ‘sapiens’
Menina observa uma figura que recria a fisionomia atribuída ao homem de neandertal. Fonte: Museo del Neandertal
El País, Guillermo Altares – 10 Abr 2021 

O debate sobre a capacidade cognitiva dos neandertais, a espécie humana mais próxima da nossa, desaparecida há cerca de 40.000 anos, parece cada vez mais convergente na comunidade científica: eram tão inteligentes, habilidosos, solidários e criativos quanto nós, os homo sapiens. Mas, agora, as novas descobertas genéticas abrem um debate ainda mais desafiador: e se, na realidade, eles não tiverem se extinguido? Impulsionados por novas análises de DNA fóssil, alguns especialistas apontam que os neandertais continuam por aqui porque somos nós, já que ocorreu uma integração entre as duas espécies.

Quanto mais material genético conseguem extrair e analisar da pré-história remota —algo nada simples, porque quanto mais antigo o DNA, mais difícil é obter resultados confiáveis— fica mais evidente que neandertais e humanos mantiveram cruzamentos constantes. A revista Nature revelou na quarta-feira as análises de DNA de quatro indivíduos europeus de 45 mil anos atrás: todos eles tinham ancestrais, mais ou menos diretos, neandertais. E não é a primeira vez que isso acontece: os outros dois genomas do homo sapiens daquela época analisados também revelam hibridização entre as espécies, num caso, aliás, muito recente (o seu tataravô pertencia à outra espécie).

Se os cruzamentos entre os neandertais e o homo sapiens fossem raros e bem localizados no tempo e no espaço, esses resultados seriam o equivalente científico a encontrar uma agulha no imenso palheiro da pré-história. O fato de ancestrais diretos aparecerem repetidamente indica um padrão. Não está claro quantas ondas migratórias humanas vieram da África para a Europa e Ásia, ou quando ocorreram. Nem o que aconteceu com os seres humanos —neandertais e denisovanos— que estavam lá quando nossa espécie chegou. Mas é evidente que mantiveram muito mais do que relações de amizade, como mostram os resultados obtidos pela equipe de Svante Pääbo, o geneticista sueco que revolucionou a investigação da evolução humana graças à análise de DNA antigo e que obteve o primeiro genoma completo de um neandertal.

MÁ GESTÃO DA PANDEMIA NO BRASIL

Desmatamento na Amazônia, má gestão da pandemia no Brasil e agravamento da crise de covid-19 devido à escassez nos hospitais são destaques no noticiário alemão

Jornal satiriza pedido de Ricardo Salles por US$ 1 bi do exterior: "Agora o preço da floresta amazônica está sobre a mesa". Foto AP, via DW.
Deutsche Welle (DW) [empresa pública de radiodifusão da Alemanha], 21 abr. 2021

Die Süddeutsche Zeitung - "Uma combinação perigosa de inação e irregularidades" (15/04)

O Brasil tem cerca de 3% da população mundial, mas registra 12% de todas as mortes por covid-19. As razões para isso são complexas, conforme analisou a equipe da pesquisadora Márcia Castro, da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard. Isso inclui o fato de que o Sars-Cov-2 inicialmente circulou despercebido no Brasil por mais de um mês. Grandes desigualdades sociais e econômicas no país também afetam o setor da saúde, contribuindo para o fato de algumas regiões terem sido particularmente atingidas. Além disso, a gestão de crises é insuficiente. As cidades impuseram poucas medidas uniformes. O uso da máscara foi em parte politizado. "Uma combinação perigosa de inação e irregularidades", escrevem os autores do estudo. Não houve muita melhora até agora, afirmam os pesquisadores. E a campanha de vacinação caminha devagar.

Pierre Van Heddegem, gerente de operações da organização Médicos sem Fronteiras para a ajuda da covid-19 no Brasil, diz: "A devastação que nossas equipes viram inicialmente na Amazônia agora se tornou realidade na maior parte do Brasil." Ele também aponta para a falta de planejamento e coordenação por parte das autoridades competentes: "Os pacientes morrem sem acesso a ajuda médica, os profissionais de saúde estão exaustos e sofrem de graves tensões psicológicas e emocionais."

 

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Brasil: ‘O LADO MEQUETREFE DE UMA SOCIEDADE...’

A cafajestagem bolsominion
Por Paulo Brondi
Publicado no Blog do Juca Kfouri – Folha de S. Paulo,19/02/2020 12h19
Bolsonaro é um cafajeste. Não há outro adjetivo que se lhe ajuste melhor.
Figura HQ, publicada na Edição do Esquerda Diário, sexta-feira 9 de fevereiro de 2018.
Cafajestes são também seus filhos, decrépitos e ignorantes. Cafajeste é também a maioria que o rodeia.
Porém, não é só. E algo que se constata é pior. Fossem esses os únicos cafajestes, o problema seria menor.
Mas, quantos outros cafajestes não há neste país que veem em Bolsonaro sua imagem e semelhança?
Aquele tio idiota do churrasco, aquele vizinho pilantra, o amigo moralista e picareta, o companheiro de trabalho sem-vergonha…
Bolsonaro, e não era segredo pra ninguém, reflete à perfeição aquele lado mequetrefe da sociedade.
Sua eleição tirou do armário as criaturas mais escrotas, habitués do esgoto, que comumente rastejam às ocultas, longe dos olhos das gentes.
Bolsonaro não é o criador, é tão apenas a criatura dessa escrotidão, que hoje representa não pela força, não pelo golpe, mas, pasmem, pelo voto direto. Não é, portanto, um sátrapa, no sentido primeiro do termo.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

LIBERDADE DE EXPRESSÃO: TOTAL SOLIDARIEDADE ao jornalista Glenn Greenwald

“Hoje, Glenn, amanhã, você: em um Estado autoritário, ninguém está a salvo...”
Por Leonardo Sakamoto*
Em tempo: O clima de ódio político é apenas o capítulo recente de um país cuja fundação foi feita em cima do sangue de negros, indígenas e pobres. Estes são sistematicamente acusados injustamente, simplesmente por serem negros, indígenas e pobres.
CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL, Brasília, 5 de outubro de 1988: "Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição. § 1º Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV. § 2º É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística. (...) É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença [Art. 5º, Inciso IX]".
O jornalista norte-americano, Glenn Edward Greenwald, radicado no Rio de Janeiro desde 2005. Greenwald é editor e fundador do The Intercept, jornal on-line que foi lançado em fevereiro 2014. Foto: Folha de S. Paulo.

Você não precisa gostar do jornalista Glenn Greenwald ou de seu trabalho à frente do site The Intercept Brasil, responsável por revelar mensagens entre o então juiz federal Sergio Moro e procuradores da força-tarefa da Lava Jato.

Mas se tem algum apreço pela democracia deve repudiar a denúncia contra ele pelo procurador da República Wellington Divino Marques de Oliveira.
Charge Henfil. Reprodução FN Café NEWS 2020.

Glenn foi acusado, nesta terça (22), de auxiliar, incentivar e orientar a invasão de smartphones de autoridades. No curso da investigação, a própria Polícia Federal não viu crime, mas jornalismo em suas conversas com hackers que foram sua fonte de informação. A investigação apontou que as mensagens de Telegram divulgadas por ele não foram uma encomenda. Mesmo assim, foi denunciado.

Vivemos um contexto de ultrapolarização política. Nele, desumaniza-se quem defende posicionamentos diferentes dos nossos, não reconhecendo que essas pessoas tenham os mesmos direitos constitucionais. Pelo contrário, defende-se
que sejam caladas e punidas por pensarem diferente. À força, se necessário. Passando por cima das leis, se preciso.

Após a execução da vereadora Marielle Franco, muitos foram os idiotas que celebraram ou minimizaram o horror de sua morte. O ataque a tiros aos ônibus da caravana que o ex-presidente Lula realizou na região Sul seria rechaçado por todos em qualquer democracia decente - o que não foi o caso por aqui, dada a quantidade de comemorações. A abominável facada sofrida por Bolsonaro foi lamentada por pessoas estúpidas que queriam que Adélio Bispo tivesse terminado o serviço. O músico Moa do Catendê, eleitor de Fernando Haddad, foi morto a faca por um eleitor de Bolsonaro, em Salvador, para júbilo de mentecaptos. Rodrigo Janot, ex-procurador-geral da República, diz que foi armado ao Supremo Tribunal Federal para matar o ministro Gilmar Mendes e ignorantes o chamaram de herói. É nesse caldo que Glenn Greenwald foi denunciado criminalmente por fazer jornalismo e matilhas ensandecidas pediram sua prisão.

Da mesma forma que parte das redes sociais já condenou Glenn Greenwald, munida por uma denúncia tão frágil que não resiste a uma lufada de Constituição do Supremo Tribunal Federal, ela diariamente acusa jornalistas com base no ódio. Tanto o provocado por seus líderes, quanto aqueles que surgem da percepção de que tudo aquilo fora da câmara de eco precisa ser eliminada.

Como já disse aqui quando hordas se reuniram para pedir, no Twitter, a deportação de Glenn Greenwald frente às primeiras matérias do Intercept, uma parcela da sociedade não entende ataques a jornalistas como uma porrada na liberdade de expressão, um pilar da democracia. Vê isso como uma manifestação banal do descontentamento. Cede aos discursos fáceis e toscos de analistas, apaixona-se pela violência de seus líderes.

domingo, 29 de dezembro de 2019

CRÔNICA DE UM NATAL...

Crônica de um Natal que ainda vai voltar 
Por Luis Nassif*
Passada a grande noite do pesadelo, em um ponto qualquer do futuro haverá um reencontro no Natal brasileiro. Há de cair a ficha do país.

Minha família, pelo menos o círculo mais próximo, não pratica o discurso de ódio. Temos algumas diferenças, nenhuma no plano moral. Antes, julgava ser um padrão normal de família classe média brasileira. Hoje em dia, agradeço a Deus pelo presente. Tias, irmãs, filhos, netos, primos próximos, todos preservam os princípios morais dentro dos quais fomos educados.
                      
Há dissidências em algumas tias e primos mais afastados, mas educação suficiente para não externar as divergências em reuniões familiares.

O que me aflige, no contato com os bolsominions, é justamente o plano moral. Apoiar uma pessoa intrinsecamente imoral, como Jair Bolsonaro, é prova de falha de caráter. É compactuar com a imoralidade.

E, olhe, jamais dividi as pessoas em bons e maus, de acordo com suas inclinações políticas. Mais que tolerância, sempre tive profundo interesse pela divergência. É a divergência que traz novas informações, permite reavaliar posições, de tal maneira que, no final da polêmica, os dois lados saem mais sábios.

Aliás, foi isso que me ensinou minha caçula Dodó quando, com 16 anos, saiu de um grupo de feministas maduras, que a utilizavam para desconstruir artigos contrários. Deixou de lado um fã clube de amigas adultas, que a cobriam de likes, por discordar da polêmica como instrumento de guerra contra o inimigo.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

DIA DE LUTA E REFLEXÃO DA CONSCIÊNCIA NEGRA EM MONTES CLAROS. E a BLACK FRAUDE do comércio no feriado...

Diretor da Igualdade Racial em Montes Claros chama de 'Black Fraude' o abuso do comércio local em abrir em pleno feriado da 'Consciência Negra'
4ª Marcha contra o Racismo e a Intolerância Religiosa, nesta quarta (20/11)  no  centro de Montes Claros. Foto: FN Café NEWS.
MONTES CLAROS (MG) – No 'Dia da Consciência Negra', as ruas do centro de Montes Claros foram tomadas nesta quarta-feira (20) por dezenas de manifestantes [dentre eles: alunos, diretores e professores de escolas públicas, além de militantes da causa negra na cidade] na 4ª Marcha contra o Racismo e a Intolerância Religiosa.

José Gomes Filho (centro), diretor da Igualdade Racial na cidade.
O diretor da Coordenadoria de Igualdade Racial na cidade, José Gomes Filho denunciou o preconceito, os estereótipos e estigmas sociais na discriminação contra o povo negro em Montes Claros e no Brasil. Zé Gomes aproveitou para denunciar o abuso de alguns comerciantes que insistem, em pleno feriado da 'Consciência Negra', em abrir suas lojas no centro da cidade, onde ele disse que "isso é uma 'Black Fraude' [referência à promoção da 'Black Friday' no comércio], ou seja, um total desrespeito com o povo negro. Por isso, nós (povo negro e simpatizantes da causa) não vamos comprar neste dia", assinalou para um possível boicote dos produtos comercializados no feriado. O feriado, segundo Gomes, "foi instituído por meio de votação na Câmara Municipal, a partir de acordo com a Associação Comercial local”.

domingo, 22 de setembro de 2019

Diante da barbárie, desgraça e dor, “mas tudo bem”, Brasil?

TUDO RUIM, MAS TUDO BEM

Por Arthur da Távola*
O “tudo bem” é uma expressão profundamente brasileira. Somos um povo pacífico e acomodado. Término do romance, sem dinheiro, brigou com a família e, após contar a desgraça inteira, diz: “Mas tudo bem”.

Na verdade, preferimos fingir que não ligamos e secretamente diluir o que nos chateia ou oprime, a remover o mal sob forma cirúrgica. Para tal, o “tudo bem” cai como luva. Revela uma espécie de certeza de que nada é duradouro, tudo acabará modificado, por mais que a rigidez pareça dominar.

O “tudo bem” possui duas outras leituras que latejam por dentro de sua significação aparente. São elas: “Não faz mal” e “deixa comigo que adiante eu dou um jeito”.

“Não faz mal” quer dizer “não importa”, “não há de ser nada”, “tentaram me atingir mas não conseguiram”. Quer, portanto, dizer: “Olha, eu não desistirei; estou apenas fingindo que não ligo”.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

CHAMARIZ EMPREENDEDOR DO "FUTURE-SE"/MEC PARA UNIVERSIDADES PÚBLICAS

A universidade não precisa de 'empreendedorismo'. Precisa de pensamento crítico
Por professor Luiz Felipe Miguel (UnB)*
Vista aérea do campus central da Universidade de Brasília (UnB) - Asa Norte/Brasília (DF). Foto: Portal do PROFCIAMB - Programa de Pós-Graduação em Rede Nacional para Ensino das Ciências Ambientais (USP)
Quando eu estava terminando o doutorado, me preparando para ingressar na carreira docente, recebi o telefonema de um ex-professor. Ele me convidava para ser sócio de sua firma de consultoria. Explicou em que consistia a proposta, enfatizou muito que o serviço era consultoria e não lobby e apresentou seu argumento principal: “Você terá uma vida muito mais confortável”.

Eu ouvi com atenção e polidamente recusei a oferta. Não sou nenhum asceta, quero ser bem remunerado pelo meu trabalho. Mas o que a universidade me oferecia era muito mais do que isso: o espaço para pensar com liberdade, para ser útil à sociedade, para contribuir na sua transformação.

Mais de vinte anos se passaram. A universidade brasileira mudou muito, de lá para cá, para o bem e para o mal. Mas continuo insensível ao chamariz do “Future-se” do MEC: não quero a oportunidade de ficar rico. Mesmo, aliás, que isso fosse de fato uma possibilidade aberta, não uma ilusão para tolos.
Quero ter boas condições de fazer meu trabalho. E a primeira condição é autonomia.

O governo Bolsonaro ataca esta autonomia por um lado com a censura ideológica, por outro com o subfinanciamento. Seu projeto é o pior dos mundos: uma universidade dependente das vontades do mercado e, ao mesmo tempo, submissa ao controle dos donos do poder.

A universidade não precisa de "empreendedorismo". Precisa de pensamento crítico.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Patrus Ananias fala nesta sexta-feira (24) em Montes Claros sobre educação pública no Brasil

Ex-ministro do combate à fome e atual deputado federal debaterá hoje na Filosofia Unimontes
* Por Waldo Ferreira
Patrus Ananias foi durante sete dos oito anos do governo Luiz Inácio Lula da Silva(2003-2010) Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Foto: Arquivo PT-MG 
Ex-ministro e atual deputado federal, Patrus Ananias (PT) estará em Montes Claros na próxima sexta-feira 24, para proferir palestra sobre “a conjuntura atual da educação pública no Brasil e seus desafios”, a partir das 19 horas, no auditório do Centro de Ciências Humanas (CCH) da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes).

A palestra, promovida pelo Departamento de Filosofia, em conjunto com as coordenações dos cursos de Filosofia e Ciências da Religião, está inserida no atual cenário de achaque à educação pública, promovido pelo governo Bolsonaro.

De acordo com o chefe do Departamento de Filosofia, professor doutor Antônio Wagner, o objetivo é reunir professores e alunos da Unimontes e de outras instituições de ensino superior, bem como das escolas de educação básica e sociedade para discutir a atual situação do ensino público brasileiro a partir das informações e análises que serão apresentadas durante a exposição de Patrus Ananias.

Segundo ele, é preciso colocar em xeque os rumos das políticas públicas educacionais, tendo em vista as ações e medidas adotadas pelo governo federal no tocante à redução de recursos e ao corte de verbas nas universidades e escolas. “Além de outros aspectos que denotam tratamento desrespeitoso para com os educadores deste país”, reitera o professor.

“O momento atual exige que nos manifestemos bravamente e conjuntamente a favor da extrema valorização da educação e do livre pensar no âmbito das instituições de ensino, bem como a favor da permanência das iniciativas que permitem a todos, especialmente os mais pobres, terem pleno acesso à formação escolar e acadêmica”, defende.

sábado, 11 de maio de 2019

DESMONTE DA EDUCAÇÃO E O SUBDESENVOLVIMENTO BRASILEIRO...

História e educação
É sintomático que universidades sejam um dos principais alvos de Bolsonaro
 Por Fernando Haddad*
CORTES NA EDUCAÇÃO: estudantes e professores se unem em ato contra medidas do governo Bolsonaro na área da educação. Foto: Rodolfo Buhrer – 10 maio de 2019/Reuters.
Há muita polêmica na literatura sobre por que as nações se diferenciam tanto em seu desenvolvimento econômico. As causas apontadas são as mais variadas: geografia, religião, instituições, colonialismo etc.

O subdesenvolvimento brasileiro, por exemplo, é associado ao nosso peculiar processo de colonização que nos legou a escravidão, o patrimonialismo e a inquisição, dos quais a abolição, a independência e a república não nos permitiram livrar-nos inteiramente.

Existem alguns fatores, entretanto, que parte dos estudiosos considera pressupostos comuns a muitas das experiências nacionais bem-sucedidas de superação do atraso.
Democratização do acesso à terra, ao crédito e à educação são alguns exemplos comumente citados, e não é difícil perceber que, ao longo da nossa história, esses fatores têm sido restringidos a uma ínfima parcela da sociedade.

A rigor, a revolução democrática deveria ter sido feita por ocasião da libertação dos negros, mas nem terra nem crédito nem educação lhes foram assegurados. Tratou-se de soltura, não de libertação.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

LUCRO ACIMA DE TUDO, LAMA EM CIMA DE TODOS

A Vale e Bolsonaro são as mais perfeitas expressões do capitalismo neoliberal no mundo*
Por Pedro Paulo Zahluth Bastos**
O rompimento da barragem de Brumadinho foi um desastre ambiental ocorrido no município de Brumadinho, a 65 km da capital mineira, Belo Horizonte, no início da tarde do dia 25 de janeiro de 2019. Rompeu-se uma barragem de rejeitos de mineração controlada pela Vale S.A., construída no ribeirão Ferro-Carvão, na localidade de Córrego do Feijão. No rompimento, ao menos 84 pessoas morreram e há ainda 276 pessoas desaparecidas. Foto: Jornal El País (Espanha) - Vista aérea da devastação em Brumadinho. 
O desastre da Vale em Brumadinho foi uma tragédia anunciada. Em dois sentidos: primeiro porque o lobby das mineradoras barra legislação para evitar o pior. Segundo, em um sentido mais profundo, porque tragédias ambientais são da lógica do capitalismo, principalmente depois das reformas neoliberais que mudaram o mundo desde os anos 1980.

O desastre com a barragem da Samarco em Mariana (MG) em novembro de 2015 também é responsabilidade da Vale. A Samarco é um joint venture da Vale com a anglo-australiana BHP Billiton. A última era a maior empresa de mineração do mundo em 2013, perdendo a posição para outra anglo-australiana (a Rio Tinto), que por sua vez teria perdido a posição para a Vale há duas semanas.

Depois do desastre em Mariana, a comoção levou a promessas de mudança de conduta por parte da empresa, de um lado, e de dureza na legislação e na fiscalização, de outro. As promessas foram vãs, pois as mineradoras financiaram lobby para barrar reformas protetoras do meio-ambiente.

Um projeto com regras severas de licenciamento ambiental para novas barragens e fiscalização mais dura das existentes está paralisado na Assembleia Legislativa de Minas Gerais há um ano. O projeto aumentava o custo das mineradoras, tanto por aumentar investimento em prevenção quanto exigir a formação de um fundo para danos futuros.

Foi vetado pelos deputados Tadeu Martins Leite (MDB), Gil Pereira (PP) e Thiago Cota (MDB). O último afirmou à BBC Brasil que o projeto “inviabilizaria a mineração em Minas Gerais… não teríamos mais como sonhar com o retorno da Samarco. Isso seria terrível para Mariana, Ouro Preto e toda uma região.”

O lobby das mineradoras também barrou projeto no Senado que aumentava a fiscalização, as exigências de segurança e as punições por não cumpri-las. Também exigia a contratração de seguro ou garantia financeira para cobertura de danos. A exigência de seguro complementaria a fiscalização pública com a avaliação da seguradora privada.

Enquanto o projeto do Senado foi arquivado em 2018, três projetos da Câmara de Deputados estão parados desde 2016. No Ministério Público, a cobrança no valor de R$ 155 bilhões contra a Samarco está suspensa por conta de negociações com a empresa, que quer diminuir o valor.

A luta contra a indenização pelo desastre de Brumadinho já começou. Na segunda-feira o advogado da Vale, Sérgio Bermudes, afirmou que a empresa “não enxerga razões determinantes de sua responsabilidade” no estouro da barragem. A repercussão negativa levou a empresa a desautorizá-lo, mas ele já pediu à Justiça mineira o fim do bloqueio de R$ 11 bilhões para indenizações.

A Vale também é conhecida por lutar contra impostos. Como outras empresas, pratica elisão fiscal através de preços de transferência: exporta para uma coligada em um paraíso fiscal, que depois revende pelo preço de mercado. Assim, não recolhe tributos devidos no Brasil (nem no paraíso fiscal).

Sem limitar-se à Vale, um estudo do economista Guilherme Morlin atestou uma diferença sistemática entre o preço do minério de ferro exportado pelo Brasil e a cotação internacional de mercado entre 2009 e 2015. A depender da base de dados, o subfaturamento totalizou algo entre US$ 39 e 49 bilhões entre fevereiro de 2009 e dezembro de 2015. Mais de 80% das exportações brasileiras de ferro foram adquiridas por empresas sediadas na Suíça, um ponto de revenda que só se justifica por ser conhecido paraíso fiscal.

A perda de arrecadação tributária foi estimada em nada menos que US$ 12,5 bilhões apenas em impostos sobre os lucros, sem contar rendimentos financeiros e a CFEM (Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais). Outro estudo do INESC calculou que a Vale pagou 40% a menos do que o devido CFEM em 2013.

Para dizer o mínimo, a Vale não devolve o que deveria para a coletividade que a abriga. A empresa é uma expressão perfeita do capitalismo neoliberal. A concorrência impõe a lógica do capitalismo sobre cada empresa: reduzir custos por todos os meios e se apropriar gratuitamente de recursos coletivos e naturais não renováveis até seu esgotamento. Já o neoliberalismo exalta a empresa e deslegitima o poder público que poderia impor regras e custos para as empresas.

Muitas empresas não têm compromisso nacional e preferem se deslocar para territórios com menores custos tributários, trabalhistas, ambientais ou regulatórios. Quando não podem, seus lobistas, políticos, advogados, intelectuais e publicitários procuram recriar condições “mais livres” em suas próprias sedes usando os argumentos neoliberais de sempre.

A má notícia para os brasileiros é que a melhor expressão mundial da pulsão neoliberal talvez seja Jair Bolsonaro, para quem a vida do empresário é difícil por causa das leis trabalhistas, dos impostos e das normas ambientais (a “indústria da multa”).

A notícia pior é que o novo desastre da Vale é fichinha diante dos desastres que serão produzidos pelo aquecimento global, produto maior daquilo que nosso presidente chamou de “dejeitos” da atividade econômica. Apesar de Brumadinho, o mais provável é que Bolsonaro continue considerando o combate à degradação ambiental e à mudança climática um complô do “marxismo cultural” contra o capitalismo.

*Texto publicado na CartaCapital, na terça-feira, 29 de janeiro de 2019.
**Desde 2002, leciona no Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde atualmente é Professor Associado (Livre Docente).

FATOS DA SEMANA

Mapa Geopolítico do Rio São Francisco

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FN Café NEWS: retrospectiva